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20 abril 2014

O som e o silêncio (parte 2)


Continuando a série sobre "O som e o silêncio", trago hoje um trecho da dissertação da Luciana Elena Sarmento. Ela fez mestrado em Música/Musicologia na UNESP, sob orientação da professora Marisa Fonterrada. A dissertação completa, intitulada "A escuta na contemporaneidade: uma pesquisa de campo em Educação Musical", pode ser acessada pelo banco de teses da UNESP.


A Música e a Paisagem Sonora

"Uma das mais importantes questões do século XXI diz respeito à deterioração da relação homem/meio ambiente, tema incisivamente tratado pela Ecologia de forma inter e transdisciplinar. Há muito tempo o homem tem agido de forma ecologicamente irresponsável e, como consequência, é cada vez maior o número de desastres naturais que assolam a humanidade. Conferências internacionais têm sido realizadas com o intuito de estabelecer acordos que possibilitem uma relação mais saudável entre o homem e a natureza, mas seus resultados se mantêm muito abaixo do esperado. 

Uma das facetas dessa relação, ainda pouco comentada na atualidade se for levada em consideração sua importância, diz respeito ao ambiente sonoro em que todos estão imersos. O som está presente em todos os lugares. Há uma parcela dos sons aos quais as pessoas estão expostas em suas vidas diárias que não escolheram escutar, como é claramente o caso daqueles provenientes da poluição sonora. Sabe-se que o nível de ruído vem aumentando, dia após dia, nas cidades de uma forma geral, mas com especial destaque às grandes metrópoles de todo o mundo. Esse fato está relacionado ao crescimento da população e também às consequências das Revoluções Industrial e Elétrica. Schafer mostra isso claramente no quadro 1: 


O quadro é ilustrativo da grande transformação na paisagem sonora pela qual a humanidade vem passando. Diante da preponderância dos sons tecnológicos e de seu considerável desenvolvimento em relação aos sons humanos e naturais, pergunta-se o que pode ter acontecido para que uma mudança tão expressiva no ambiente tenha chamado a atenção de tão poucas pessoas. Percebe-se, no quadro apresentado, que houve um aumento de 5% para 68% dos sons oriundos de materiais tecnológicos, enquanto os sons naturais tiveram evolução inversa. Torna-se evidente a afirmação de Schafer de que o esgoto sonoro do ambiente contemporâneo, juntamente com outras formas de poluição, não tem precedentes na história humana (SCHAFER, 1991, p. 123). Ele enfatiza as consequências de muitas inovações no que tange à paisagem sonora, fazendo então uma crítica a alguns encaminhamentos para os quais a tecnologia negligente está conduzindo a humanidade.

Os modos de vida em um vilarejo podem exemplificar esse fato. O ato de plantar e colher contribui com as variações sazonais da paisagem sonora. Com a eclosão da Revolução Industrial e o trabalho nas fábricas, essas nuanças foram sendo ofuscadas pelos novos sons. Na cidade moderna elas são abafadas pelos ruídos da paisagem sonora lo-fi. Schafer julga ser de extrema importância procurar aproximar-se da natureza para, assim, elaborar ambientes sonoros saudáveis; além disso, sugere que se usem como módulos básicos para aferição de um ambiente o ouvido e a voz humanas, pois poucos sons no mundo natural são capazes de interferir na comunicação entre os homens ou de prejudicar suas capacidades auditivas. O educador destaca o valor da “inteligência” da natureza ao fazer que os movimentos corporais sejam desprovidos de ruído, e, ainda, ao situar o limiar da audição humana convenientemente após um nível que “introduziria um contínuo recital de moléculas de ar chocando-se umas às outras” (SCHAFER, 2001, p. 290). 36 
A decisão de Schafer de estudar os novos sons e os padrões de comportamento humano que decorrem destes não se dá sem motivo aparente: segundo ele, a Revolução Industrial apresentou drásticas consequências. Nessa época, foi notificada pela primeira vez a doença do caldeireiro, conhecida como boilemakers disease: em função do intenso ruído produzido pelo trabalho de martelar e rebitar peças de aço agrupadas, os trabalhadores perderam a capacidade de escutar frequências agudas. Mais tarde, o termo passou a ser usado para referir-se a todos os tipos de perda auditiva industrial (SCHAFER, 2001, p. 113). O curioso é que, na década de 1960, ao mesmo tempo em que as indústrias procuravam limitar seu ruído a um nível situado entre 85 e 90 decibéis (que é a máxima intensidade recomendável para sons contínuos), as bandas de rock regulavam seus amplificadores de forma a produzirem picos de 120 decibéis, impelindo a produção sonora para um nível acima do limiar da dor. Como conclusão, descobriu-se que os fãs de rock, em sua grande parte, adolescentes, estavam sofrendo da “doença do caldeireiro” (SCHAFER, 2001, p. 166). 

Atualmente, esse problema não se limita aos amplificadores das bandas de música popular e aos trios elétricos; com a popularização dos aparelhos de reprodução musical (ipods, mp3 players, e até mesmo telefones celulares), há a possibilidade de se ouvir música em qualquer momento e lugar. Acrescenta-se a isso o problema dos ambientes cada vez mais ruidosos, sendo comum que o usuário regule o volume do seu aparelho muito acima do limite considerado saudável para a audição, que é de 60 decibéis. Não é de se estranhar, portanto, o surgimento de estudos, divulgados, inclusive, nos meios de comunicação, que discorrem a respeito do risco a que se expõem aqueles que ouvem música em volume alto com fones de 
ouvido. Tais estudos afirmam que o uso desses fones pode prejudicar de forma irreversível o aparelho auditivo dos usuários, contribuindo para uma possível perda da audição (FONE... [s.d.]23; JOBIM, 200824). 

Por se tratar de uma vibração, o som também afeta outras partes do corpo, e pode ser responsável por dores de cabeça, náuseas, impotência sexual, redução da visão, debilitação das funções gastrintestinal e respiratória (SCHAFER, 2001, p. 260). Uma série de observações e experiências científicas a esse respeito é listada por Schafer em O Ouvido Pensante (1991). Algumas delas denunciam maneiras pelas quais o som pode ser utilizado como arma letal, evidenciando-se aqui, mais uma vez, as relações existentes entre som e 
poder, questão também estudada por Attali (SCHAFER, 2001 p. 111-115; ATTALI, 1985, p. 6-9). De maneira geral, elas apontam algumas graves consequências à saúde e à integridade física humanas, causadas pela superexposição sonora.

(...)

Diante do exposto até então no presente texto, o leitor pode-se perguntar: qual a razão em se falar a respeito de paisagem sonora em um estudo dedicado à Educação Musical? A Música é a subárea do conhecimento que tem por excelência a escuta, pois, afinal, o material com o qual ela lida é o som. John Cage (1912-1992), compositor norte americano, define música como sendo “sons, sons à nossa volta, quer estejamos dentro ou fora das salas de concerto” (CAGE apud SCHAFER, 1991, p. 120). Ouvir música, então, é ouvir todo o som que está à volta, todo o ruído (SCHAFER, 1991, p. 119-121; ATTALI, 1985, p. 6), o que pode constituir um desafio, visto que o ruído é o som que se aprende a ignorar quando se está 
imerso em uma sociedade excessivamente exposta a eventos acústicos de toda a ordem, entre
os quais se destacam, em intensidade mais elevada, aqueles provenientes de artefatos tecnológicos.
A fim de reverter esse quadro e permitir que se possam perceber sutilezas e pormenores sonoros com acuidade, Schafer sugere que sejam feitos exercícios de “limpeza de ouvidos” com o intuito de promover a percepção de sons pouco percebidos que, no entanto, fazem parte do ambiente no qual se está inserido, além daqueles introduzidos por cada um. Muitos desses exercícios podem ser encontrados nos livros A Sound Education (SCHAFER, 1993)25 e O Ouvido Pensante (Idem, 1991, p. 67-118). Além da percepção dos sons, parte dos exercícios de limpeza de ouvidos é dedicada ao desenvolvimento da competência sonológica que, de forma simplificada, é a capacidade de reprodução dos sons escutados: pode-se, por exemplo, emparelhar a própria voz à de outra pessoa na repetição de palavras ou frases, ou 
ainda, solicitar que se imite com a voz o som de uma pá cavando areia, cascalho, e outros. Afinal, “para que se relatem as impressões de alguém em relação ao som é preciso empregar som. Qualquer outro meio será falso” (SCHAFER, 2001, p. 215-6). Dessa forma, “o único modo de conferir percepções é projetar práticas regulares pelas quais os ouvintes possam reproduzir exatamente o que ouvem. Essa é a razão pela qual os exercícios de treinamento auditivo em música são tão úteis” (Ibidem, p. 216). 

Os exercícios de “limpeza de ouvidos” são considerados pelo educador como introdução fundamental ao estudo de Música, visto que a escuta atenta e consciente dos sons é peça chave para o desenvolvimento de seu trabalho em Educação Musical, que se concentra em quatro pontos principais: 
1) Procurar descobrir todo o potencial criativo das crianças, para que possam fazer música por si mesmas.
2) Apresentar aos alunos de todas as idades os sons do ambiente; tratar a paisagem sonora do mundo como uma composição musical, da qual o homem é o principal compositor, e fazer julgamentos críticos que levem à melhoria de sua qualidade.
3) Descobrir um nexo ou ponto de união no qual todas as artes possam encontrar-se e desenvolver-se harmoniosamente.
A isso, acrescentaria um quarto campo, que estou apenas começando a explorar: a contribuição que os orientais podem dar à formação de artistas e músicos do Ocidente (SCHAFER, 1991, p. 284-5). 

Observando-se a presente citação, pode-se constatar que a fundamentação do trabalho em Educação Musical de Schafer perpassa pelos itens fundamentais, comentados no início deste capítulo, a saber: desenvolvimento do senso crítico, desenvolvimento da criatividade, desenvolvimento da atenção e concentração e refinamento da escuta."




Principal referencia utilizada pela autora:
SCHAFER, R. M. O Ouvido Pensante. Trad. Marisa Trench Fonterrada. São Paulo: UNESP, 
1991. 
SCHAFER, R. M.  A Afinação do Mundo. Trad. Marisa Trench Fonterrada. São Paulo: UNESP, 2001.

Veja as outras referências e a dissertação completa clicando aqui.

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